PoemOikos

Em 2016, o Oikos completou 15 anos e o querido amigo João Marino Vieira, poeta sensível e comprometido, escreveu estas poesias pra comemorar a data e que seguem abaixo. Todas falam de um espaço em movimento. Esta coletânea foi intitulado como PoemOikos, que é uma forma poética de conhecer o Oikos de um outro olhar.
Conheça o Oikos, divulgue o Oikos, viva o Oikos!

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Lar de Encontros

É no caminho que a gente se encontra!
Um caminho de busca nos leva a lugares especiais,
Lugares de encontros…
Podemos mudar de casa mil vezes
Mas nenhuma de lar;
Este, carregamos conosco
E por ele somos carregados.
Encontrar-se em casa é prazeroso.
Podemos correr mundo,
Navegar oceanos,
Podemos voar céus,
Mas é no lar que nos encontramos.
No lar me encontro seguro,
Sem sede e sem fome,
Saciado.
Uma vida simples, fácil e carinhosa
nos faz sentir em casa,
mantém aceso o fogo da cozinha.
Neste lar de encontros nada me falta!

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Oikos

Há um fogo perene em minha casa
Deste fogo emana uma luz
Clara e quente

E minha casa iluminada
É uma casa pra toda gente
Pois que não se acende um fogo
Para prendê-lo sob o cesto

E toda a luz de minha casa
É uma luz de muitos
De dentro desta luz
Raiam humanidades
Humanizando o mundo
Raiam divindades
Fazendo mais Lares
Fazendo mais lumes

Daqui, este fogo se multiplica
Expande-se e alarga-se
Por miríades de lares
Até sermos um fogo único
Um mesmo fogo a nutrir muitos
Num Lar de todos!

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Ponte das Cinco Sabedorias

Acolhe com generosidade,
Investiga causas e efeitos.
Livre da mente,
Transforma pela compreensão.
Esta é a natureza da ponte:
A sabedoria não está na ponte,
Mas flui por ela.
Contempla este fluir
Até fazer-se a própria fluidez!

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Horta

Pra fome de amor só amor serve de ceia¹
Ao desejante de paz só a paz é que sacia
Uma alma livre só a liberdade acaricia
Pro anseio de luz só a luz é que clareia

O infinito Sol que brilha é salvação
Desenha cirandas de corpo, fala e mente
A luz é pura vontade e fala naturalmente
Em mim se faz um só o pensar, querer e ação

Aqui o universo tem sua música própria
Esta música vem de onde podemos nos encontrar
De onde podemos encontrar Deus
A realidade presente é estridente
Mas daqui eu posso ouvir a música
Em ondas de melodia
Que me fazem fluir na consciência da essência.
Todos os órgãos do Todo em harmonia
Solo, ar, água, luz, planta, animal, homem, cosmo
Leis universais, mensageiros e mediadores
Mistérios das relações reveladas

Por sua graça eu vejo
Por sua graça eu sinto
Por sua graça eu ouço
Por sua graça saboreio
Por sua graça respiro
Por sua graça dou graças!

1- Lembrando Arnaud Rodrigues – canção Índio do Uruguai.

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Lar de Nutrição

Pra fome de amor só amor serve de ceia¹.
Ao desejante de paz só a paz é que sacia.
Uma alma livre só a liberdade acaricia.
Pro anseio de luz só a luz é que clareia.

Neste altar arde o fogo,
que sacia esta fome de amor e amar.
Neste altar sacio minha ânsia de paz.
Altar do santo ofício,
que a liberdade acaricia.
Aqui se faz a alquimia,
sacrifício isento de sangue.
Transcendência de matéria em alimento,
de alimento em nutrição.
Nutrição em ação,
arquétipo em movimento, rito.
Elementar é a mesa,
Elementares à mesa.
Banquete que transubstancia e consubstancia.
Neste banquete de amor só amor serve a ceia.

1- Lembrando Arnaud Rodrigues – canção Índio do Uruguai.

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Lar do Guerreiro

Onde encontro a flor de lótus?
Meu coração anseia o conforto deste lar!

Maestria na determinação e respeito aos limites,
Alinhamento de palavras e ações
Num estado de ética pura;
Impecabilidade, paciência e perseverança.

Perfeição na prática da sabedoria
Ancorada na concentração,
Disciplina e responsabilidade.
Muito fazer quando muito há que ser feito
E nada fazer quando nada puder ser feito.

Honrar e respeitar, perfeição na prática da generosidade;
Uso correto do poder da presença, comunicação e posicionamento.
Manifestação do Divino no divino que há em mim!

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Lar da Mestra

Pelos firmes fundamentos daquilo que espero,
pelas fortes razões daquilo que não vejo,
em Sua direção eu parto a cada manhã.
Mesmo a escuridão da noite não me detém.
Ela caminha em minha direção
e eu caminho ao Seu encontro.
Ambos desejamos este encontro,
não por nós mesmos,
mas pelo que há de nascer,
pelo númeno que sobrevirá em mim:
Eu Sou eu e sou Ela
E sem Ela nada eu sou!

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Lar do Fogo

A luz da fogueira ilumina e esculpi o mistério.
Uma escultura impermanente que vai surgindo,
Empodera e amedronta.
Figuras toscas surgem da escuridão,
Gritos na noite escura
– medos se acendem.
A luz que ilumina,
O calor que reconforta,
As cores que atraem,
Os sons que embalam,
O cheiro que transporta…

Extasiado,
Medito com o misterioso fogo.
Ando em redor,
Ouço tambores,
Danço em rodas…
Aproximo-me cada vez mais,
Cada vez mais fogo adentro.
Cada vez mais fogo há dentro.
Transformo-me naquilo que sinto.
Toda aquela beleza em cores e calores,
Todas aquelas formas e luzes,
Aos poucos sou eu mesmo,
Todo e inteiro ardendo…
E o Divino se apresenta,
Queima e não consome a matéria que lhe suporta.
Eu Sou uma fogueira, uma sarça ardente…
Eu Sou um fogo que chama, empurra e abrasa…
Eu sou corpo e alma em chamas.

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Lar-birinto

Passo e passo
Lento e calmo
Passos peregrinos
Peregrino a passar
Passo e passo
Balanço e balanço
Sigo a passar
Passo e passo
Passo e não passo
Portal da impermanência
Abraço o caminho
Sigo em reverência
Cada passo é paz
E cada passo leva sempre mais dentro
Quando já bem dentro
Sento ao centro
Longo momento de solidão e inegável pertencer
Sinto o coração que se expande em ondas
O caminho trilhado vibra e reverbera
A brisa faz ondular o chão
E novamente me ponho a caminhar
Sem fechar-me dentro
Sem perder-me fora
Beijo do Grande Mistério!

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Lar de meditação

Acalmar o tumultuo da respiração,
Pacificar o furor dos pensamentos,
Meditar sem medidas
até que esteja meditando sem meditar…

Pensar os próprios pensamentos,
Olhar de novo para ver bem,
Transpirar em busca da fonte…

Recitar as próprias palavras,
Evocar o verbo verdadeiro,
Pedir e confiar no jorro da fonte…

Observar os pensamentos em movimento,
Testemunhar as próprias sensações,
Abandonar-se em mergulho na fonte…

Conciliar os sensores,
Ver sem se ver,
Ouvir sem se ouvir,
Extasiar-se na beleza
Até não haver mais esforço,
Nem dor, nem prazer,
Apenas fluir!

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Lar da Água

Cristalino mundo
Entre mundos
Dentro deste mundo!
Reino de transparência e fluidez.
Assim é este pequeno lago,
como outros seis ele é.
Assim também vós sois
ou podeis vir a ser…
Toda força da fragilidade mora ali
sob a proteção de ondinas.
Sua água é fresca e mansa,
mesmo quando quente e bravio o sol.
Está sempre ali,
mesmo quando não busco.
Quando mergulho
me abraça;
Se estou com sede
se oferece;
Se me agito
faz barulho comigo;
Se calo
me acalanta;
Se o olho bem fundo
vejo dentro de mim;
Se derramo uma só lágrima,
nela sacia sua sede.
Em suas águas estou em casa
Ali moramos
a sabedoria, a paz e eu!

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Lar da Árvore

Que loucura esta,
Não de morar nas alturas,
Mas de ter as alturas como lar!
E como, sem ter asas?
E por não tê-las, contar com as árvores…
Ela, a árvore,
Grande e forte,
Tamanho e coração.
Precisa ter braços abertos, precisa apontar para o alto,
Precisa me aceitar como filho…
E como ter uma mãe árvore?
Definitivamente loucura!
Viver assim no colo de uma árvore,
Viver assim nas alturas,
Lado a lado com os alados.
E a casa ser um ninho?…
Do alto daquele cambará
Nunca mais pude ser eu!
Lá no alto só fui nós,
Fui um com ele,
Fui um com tudo,
E tudo foi eu:
árvore, brisa, pássaro, abelha, borboleta, musgos…
Tudo, tudo eu fui!
E já não posso mais ser o eu que eu era.
E acho que tudo não pode mais ser o tudo que era
Sem ser agora o eu que somos!

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comunidade
Comunidade de Lares

Todo Lar é divino
e cada coração é um templo!
Encontra teu coração,
entra nele em silêncio de prece
e canta a canção que alimenta o fogo na cozinha,
o canto que lava a roupa na fonte.

Nascemos com este propósito,
pois o oceano infinito chama a gota infinita.
Nosso coração tem sede de amar,
anseia por recordar o tempo da unidade.
Ansiamos pela experiência de ser um com o ser amado
e com ele acender o fogo e erguer um lar mais ancho.
E assim fazendo,
satisfazer a memória de ser um com o Todo.
Mas isso é só metáfora de amor,
vislumbre da magnificência.
Aproximamo-nos ainda mais do amor
na profunda experiência da paternidade,
na transcendente experiência da maternidade.

Mas será que não podemos ir além da experiência a dois?
Ter uma experiência mais larga?
Reconhecer-se pai do filho de outros,
Reconhecer-se irmão de outros
e filho dos pais de outros irmãos?
Que tal uma comunidade de lares,
uma comunidade de chamas acesas?
Sem cercas, sem os de fora e os de dentro…
Que desafios tal experiência impõe?
Aonde nos levaria?
Mais fundo, mais dentro, mais infinito adentro?
Honraremos nossa memória de que somos Um?
Um lar…
Uma comunidade de lares…
Um grande Lar!

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Companheira
Companheira

Ela veio não sei de onde,
Chegou como um cão caído de mudança…
Sentiu-se acolhida e acolheu;
Fez-se companheira do cotidiano – lá fora,
Então, chamei-a de Companheira – cá dentro.
Tinha um jeito diferente de caminhar,
As pernas traseiras um tanto presas,
E a alegria sempre solta,
Caminhando sempre junto!
Um dia apareceu com filhotes,
Mais alegre que sempre,
Mais companheira que nunca.
Fez-se companheira dos visitantes,
Peregrinas e guerreiros, gnomos e fadas;
Ouvinte pros que queriam falar,
E falou aos que queriam ouvir.
Caminhou junto em muitas trilhas;
Fez seu ritual de passagem e partiu…
A vida é assim!
Mas sempre quando chego à porta,
Sinto ainda sua calorosa saudação
E pelas trilhas ainda sinto seu caminhar.
Não a convidei a entrar,
Mas entrou…
Não me pediu pra ficar,
Mas a acolhi…
E como nunca disse adeus,
Acho que anda ainda por aí,
Fazendo companhia aos que buscam um lar
Chamando companheiras e companheiros!

(Companheira. Este era o nome da primeira cachorra que chegou no Oikos em 2002, onde ficou ate passar em 2011. Teve três partos que, sendo que de um deles, o autor destes poemas – João Marino Vieira – adotou a cachorra Lica que vive com sua família ate os dias de hoje) ).

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Andarilho
Andarilho

Humano não é aquele que vê, interpreta e faz,
mas aquele que se vê, se interpreta e se refaz.
Não nascemos humanos, nos tornamos!

Quando o nó na garganta
é mais que o nó da gravata,
um nó na vida desnorteada,
um nó no estomago empanturrado,
um nó na alma vazia,
um nó nas pernas, que imobiliza…
Surge, então, um andarilho e indaga,
jogando fora todas as velhas respostas;
Surge, então, um andarilho e anda,
jogando fora todos os mapas já impressos.
Porque para quem não sabe aonde vai toda estrada é caminho;
mas para quem sabe aonde vai todo caminho é sagrado,
embora apenas um tenha seu coração!

Sou um buscador!
O que eu busco?
A mim mesmo…
De onde eu venho?
Não sei. Estava perdido!
Para onde eu vou?
Também não sei. Ainda não sei onde estou…

Tenho dormido ao relento.
Sei que gosto do fogo crepitante,
da água do rio, da chuva,
da brisa no ar, do mar,
da terra em ternuras de campos e florestas.
Minha mochila já anda mais vazia
e meu coração mais cheio,
minha alma mais leve.
Já quero bem pouco:
Respirar, comer, dormir;
Servir a mim mesmo!
Busco acolher o que encontro,
permanecendo aberto ao mistério, que cada encontro encerra.
Busco na memória infantil aquilo que fazia feliz,
os lugares de guarnição,
os caminhos de casa;
os braços ternos e os abraços eternos.
Busco estar onde estou,
ser ciência do movimento perpétuo,
certeza da energia vital, que em tudo habita.
Busco ser a fé do grão de mostarda, que em nada crê.
E sem crer, também eu,
realizar o gérmen,
que dentro de mim eu sou:
Tornar-me humano!

(POesia escrita especial para fazer parte do curta Andarilho – O Buscador. Assista o curta “Andarilho” de Jurandir Lisboa – https://vimeo.com/91347380 )

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Credo da Grande Esperança

Nós somos muitos
e somos um só no amor de todos!
Nós amamos muitos outros
e só um é o nosso Amor!
Nós amamos você
antes mesmo de te formares no ventre de tua mãe;
Somos nós teu verdadeiro pai,
Somos também teus verdadeiros irmãos
E todos, verdadeiramente, queremos ser teus filhos.
Nós cremos no teu amor
e esperamos no teu perdão
a desistência de todo ressentimento.
Nós cremos numa humanidade de diferentes,
sem inferioridades e superioridades.
Buscamos uns nos outros tudo o que nos faz bem
e sozinhos não podemos ter;
Buscamos dar aos outros tudo o que os faz bem
e sozinhos não podem ter.
e juntos, não nos esquecemos de nenhum dos outros.
Cremos numa sociedade simples, fácil e carinhosa!
Cremos na prosperidade junto com todos os seres
e sozinhos em nada cremos!

(Esta poesia foi feita especialmente para o livro “Huxtlan – O livro da ultima grande esperança”. Adquira esta obra: http://www.oikos.org.br/livros/ )

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O que vale ser vivido?

O mundo humano,
Cada vez gera mais fazeres,
Mais possibilidades de gastar o presente.
Quantas valem o tempo que exigem em troca?

Cada vez quero menos falar;
O que vale ser dito?
Cada vez quero menos ouvir;
O que vale ser ouvido?
Cada vez quero mais fazer,
Mas o que fazer que valha tornar-me passado?

Sei que todas as coisas que faço
E todas as coisas que posso fazer,
Todas são provisórias, mortais como eu.
Como, então, escolher o que fazer?
Não desejo coisas eternas,
Tampouco um fazer sem fim.
Mas o que fazer que valha o presente sepultado?
Que valha cada fração de mim?
Sei que a morte,
Em um determinado momento,
Incerto e insabido,
Deixará o futuro para juntar-se ao presente.
Sei que a vida é a arte da impermanência,
Onde a morte está sempre presente.
Por isso me importa essencialmente saber
E viver o que vale o tempo de ser eu!

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NOSSA GRATIDÃO AO AMIGO, IRMÃO E GRANDE APOIADOR DO OIKOS, JOÃO MARINO, PELO CARINHO E DEDICAÇÃO QUE TEM DADO ESTES ANOS TODOS AO NOSSO ESPAÇO. NOSSA CASA É O TEU LAR, NOSSO LAR É A TUA CASA.